Não consigo ter interesse pela vida real. Gosto de fugir da minha realidade e imaginar a dos outros que, para mim, não é senão a pura fantasia ... Talvez por isto me tenha encontrado num sítio mágico, onde a natureza, que engole por completo a cidade, me liberta deste emprisionamento constante à ilusão.
Sintra ao pôr do sol. A sensação de acordar a cada instante. As cores desbotadas pelo sol e as nuvens, o verde, o azul, o laranja, que me pintam, respectivamente, de esverdeado, azulado e alaranjado; os montes, o castelo, o cheiro da vegetação molhada pela chuva da manhã, o nevoeiro místico de um sítio mágico, no entanto, mais real do que tudo o que a minha vida já tocou.
Viver aqui ... completamente.
Não sonhar mais, mas tornar a vida na matéria do sonho.
Enfim, um.
Arquivo
carta aberta
Escrever é estar vulnerável. Principalmente, quando escrevemos para um amigo, um confidente... Na maior parte das vezes serão coisas triviais, mas há raros momentos em que uma mensagem para um amigo coincide com um momento de reflexão, de expressão de um estado de espírito pertencente a um tempo, uma idade, uma fase... espíritos de uma vida anterior ou duma vida que se repete. E, sem sequer nos apercebermos, colocamos a nossa identidade numa pequena cápsula do tempo e voltamos a aprender a conhecermo-nos a cada leitura. São pessoas dentro de nós, esquecidas ou relembradas, que ficam para sempre gravadas no conforto do sigilo, na vulnerabilidade do 1 a 1, e na honestidade de uma carta.
Esta é uma carta, agora aberta a todos.Uma carta de um dia em que me senti assim e fiz disso palavras para uma amiga. Do dia em que fui confrontada com a pergunta "como quero ser lembrada depois de partir?", partilhada num outro dia em que não sei ainda a resposta. Uma carta igualmente ou ainda mais relevante por me encontrar nas vésperas do meu 20º aniversário e por ter vontade de voltar a escrever-lhe e dizer "Lembras-te disto? Ainda não sei quem sou".
sonhos pessonianos II
Tenho medo do futuro.
Tenho sentido que não vivo e desperto sobressaltada quando alguém me lembra de que existo. À noite, mantenho-me sempre acordada e de dia sinto-me sempre a dormir. O sono como um estado de espírito.
Tenho medo.
Tenho medo de perder a cabeça mas, ao mesmo tempo, sinto-a tão pesada nos ombros que sinto que nem a força de três homens a podia salvar de se afundar.
Queria saber escrever romances, criar personagens e as suas histórias mas estou demasiado perdida dentro de mim e todas as personagens que vivem dentro de mim são imitações da mesma imitação. Imitação de vida.
Queria saber escrever ... Sempre me perguntei se quem escreve pensa que deve escrever coisas tristes ou se são tristes todos os escritores...?
Pode a depressão ser um traço de personalidade?
Pode escrever ser um estado de alma?
É a solidão que leva as pessoas à loucura ou são as pessoas loucas que se isolam?
Conhecer pessoas é exaustivo para mim, mas então porque me custa tanto estar sozinha? Desentendo-me. Esperei encontrar-me num livro e encontrei-me num livro escrito por um esquizofrénico... Esperei encontrar-me numa banda e encontrei-me numa banda com um vocalista suicida ... Só nos filmes vivo outras vidas. Nos filmes e nos sonhos. Mas eu não consigo dormir...
Por isso, sonho acordada, de tal forma que não sei se é por sonhar que vivo ou se é por viver que sonho. Às vezes, imagino que a minha alma, se é que algo assim existe, escolheu ir viver para um dos meus sonhos e deixou o corpo para trás. Talvez por essa razão me olho ao espelho, me vejo a mexer nalgum reflexo, me ouço a falar e me não reconheço.O meu corpo não sou eu. Quem eu era já não sou, nem posso dizer que não 'sou' porque nem sei quem é a pessoa que escreve estas linhas.
E, por isso, passo os dias imóvel. Como se a alma, ou a "vontade" me tivesse sido colhida nalgum encontro real ou irreal com Blimunda. Afinal, se imito a vida sou tão real quanto qualquer personagem de um livro. Mas mais irrelevante ainda pois a minha história nunca ocuparia as páginas de algum. Pobre Blimunda, e que pobre o seu destino. Mas quem há que não sinta compaixão por Blimunda e a sinta por mim?
sonhos pessonianos I
Ultimamente, não consigo dormir. A minha mente corre mais rápido do que eu. Tão mais rápido que temo perdê-la para sempre ... A minha mente funciona por associações impossíveis de transcrever para o papel. Passo as noites a sonhar tudo o que a realidade me impediu de sonhar durante o dia. Os sonhos são tantos que não consigo dormir. A minha gata dorme sem saber, alegria dos inconscientes que passam pela vida como quem dorme. Eu vivo como quem sonha, ou sonho que vivo.
Sentir gozo em escrever. Escrever como quem desenha rabiscos numa folha. A escrita como o sexo. Mas, para mim, a escrita tem todas as complicações do amor. Penso em escrever todos os dias e a toda a hora escrevo a pensar, mas a escrita é para mim algo doloroso. Dói-me não saber escrever a vida e dói-me não saber viver a escrita. Dói-me sobretudo não saber viver. Tenho mais prazer em fingir que escrevo letras, em fingir que escrevo ... também, por isso, vivo a vida a fingir. Imito a vida em sonhos ...
Subscribe to:
Comments (Atom)

