"I see humans but no humanity"

A chuva seguiu-me até à gare. Ainda enevoado, sento-me num banco à espera do autocarro. 8:30 mais 20 minutos, 8:50, óptimo. Lisboa não é uma cidade para fazer planos. Lisboa, cidade do Fado, cidade do amor encontrado em cada viela. Encontrado e perdido ... fado triste. Quem nasce nesta cidade nasce já atrasado para o destino final. Sempre as horas, sempre as horas. São já 8:30 e o autocarro ?? 8:40, 9h, espero. Aqui tudo corre a uma velocidade tal que os carros não vêm as passadeiras, apenas uma mistura perigosa de vermelho já com traços de verde, as pessoas não vêm os carros, as próprias pessoas não vêm as pessoas ...
É dia de greve e vejo tristemente a chegada do autocarro sucedida de uma selvajaria tal que faria o sem-abrigo a mendigar na calçada virar o olhar ... Ou talvez não, as pessoas não vêm as pessoas. O sem-abrigo ignora a situação, tal como as pessoas o ignoram a ele, e tal como estas são incapazes de se ver a si próprias. Lisboa, cidade da cegueira epidémica ... 9h e onde estou ? Será que me enganei no autocarro ? 9h, 9:40 ? Tenho tempo. E onde está Lisboa dos postais, cidade das ruas desenhadas pelo eléctrico e das casas velhas com a aparência do tempo ? Vai uma ginginha ? Com ou sem ginja ? De copo na mão imagino-me na baixa, o cheiro a castanhas e o peito cheio de Fado ... Mas que fado triste e só ... 10:05 e estou no Campo Pequeno, tanta pressa, tanta pressa, não tenho tempo, não tenho tempo ... Mas chega o fim da semana e Lisboa já vai longe do coração, aqueles olhos negros cantados num Fado qualquer são esquecidos por outros cuja melodia já eu conheço de cor. 12:30, meia hora de metro, mais uns 10 minutos para comprar bilhete, 13:45 estou a partir, 15:30 em casa ...
E em Évora está tudo como deixei. Lisboa, menina e moça. Évora, velha companheira. Lisboa, cidade de stress, do metro que só chega quando lhe convém, das pessoas que empurram até empurrarem com elas uma última réstia de humanidade. Lisboa dos solitários e dos casais. Lisboa paradoxal. Lisboa minha. Lisboa faça chuva ou faça sol, sempre Lisboa, sempre Lisboa ... mas Évora ... Évora da Harmonia e do jardim Diana. Cidade dos bairros brancos, Évora da escola onde te conheci, dos corredores onde te beijei ... Évora da saudade e do fado, fado feliz. Évora nossa.