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(pequeno) ensaio sobre a ansiedade

Contava-se que havia um personagem de tal forma ansioso que nem ansioso se sentia, já estava sempre a sentir outra coisa qualquer. Mas tão pouco sentia ele ... Um dia acordou antes do despertador tocar, como, aliás, acontecia frequentemente e num ápice se levantou da cama para mais um dia de extrema pontualidade. Eram 7 da manhã e apenas teria que estar no trabalho às 10 mas tinha sempre medo de não ter tempo suficiente. Tomou banho num instante e vestiu-se, sempre a controlar as horas no relógio que usava no pulso. A roupa estava já escolhida desde a noite anterior e o pequeno-almoço já pensado com todos os componentes cuidadosamente dispostos de forma a facilitar a sua preparação de forma mais rápida. Comia quase sem gosto pois já pensava no passo que teria que dar a seguir. Calçar os sapatos, pegar na mala já com tudo arrumado e sair porta fora. Os seus pés pareciam sempre nem tocar o chão e nunca perdia de vista o horizonte. O chão que pisava nem o via, o presente sempre lhe passava ao lado ...

Lá ao fundo vê o prolongamento da rua que tem que seguir e imagina já a rua que vem depois, ao cruzar a rua vê à distância o semáforo a ficar verde e apetece-lhe correr até ele ou quando lá chegar vai voltar a ficar vermelho e terá que esperar. É que já são 8:30 ... e se o tempo foge ? O metro demora apenas 15 minutos mas Ananke parece viver numa cápsula de tempo isolada da nossa, onde nenhum relógio marca as horas presentes. O seu marca as horas a que tem que estar no trabalho, as horas a que chega a casa, as horas para jantar, as horas para acordar no dia seguinte, e Ananke nunca está em lado nenhum, está sempre a caminho de outro lado qualquer.


Um dia o seu relógio que não pertence ao nosso mundo, marcou a hora a que ele iria morrer. Apavorado, verifica as horas no relógio do mundo real e vê que faltam apenas 5 minutos. Iria morrer às 18h05 do dia 12 de Março (nem tinha direito a morrer em horas certas, as únicas que pareciam existir para Ananke) mas ele não se tinha preparado para isso!

No caminho de casa para o trabalho e do trabalho para casa nunca arranjou tempo para viver. Ananke era novo, pensou que tivesse tempo para tudo isto na sua reforma. Mas afinal a sua hora tinha chegado e ele, que sempre vira as coisas com antecedência, nem a viu chegar. Que fazer agora ?

Nos seus últimos momentos de vida, Ananke que nem segundo nome tinha tempo para ter, sentou-se no sofá da sua sala que estava já no seu apartamento quando o comprou e onde nunca se tinha sentado antes (quem tem tempo para se sentar? Mesmo quando se sentava à secretária do escritório, sentava-se já virado para a direcção da porta). Sentado, contou os minutos que lhe restavam. E por cada minuto, imaginou coisas que teria feito noutra vida que não a sua, na vida de alguém com tempo. E contou ... 10. Sentir o vento. 9. Observar uma paisagem. 8. Escutar os pássaros pela manhã. 7. Sentir a chuva. 6. Alegrar-se pela chuva, alegrar-se por ter acordado! Por ter visto mais um dia, alegrar-se por nada, por tudo! 5. Ser feliz. 4. Ajudar um daqueles homens que pediam nas calçadas da rua (que Ananke nem sabia o que pediam, nem tinha a certeza se tinham rosto pedinte algum por nunca o ter visto) 3. Respirar, não apenas por necessidade dos pulmões 2. Ouvir. 1. Amar ... E assim, em 10 minutos, se resumia uma vida. Sem pressas, sem urgências e no entanto tão simples, tão rápido e de tanta urgência que as pessoas o entendessem.

E Ananke, que sempre se orgulhara do seu cumprimento dos horários e da sua pontualidade, viu que contara rápido demais e faltavam ainda alguns segundos. Então, abriu a janela e sentiu o vento. Não pensou nada, sentiu ... e quase como um reflexo, atirou-se do 7º andar onde passara metade do seu tempo de vida. Metade no escritório, metade em casa e afinal nunca esteve nem no escritório nem em casa, esteve sempre no meio dos dois.

Ananke morreu. Ambos os relógios marcavam as 18h05.



"I had always heard your entire life flashes in front of your eyes the second before you die. First of all, that one second isn't a second at all, it stretches on forever, like an ocean of time... For me, it was lying on my back at Boy Scout camp, watching falling stars... And yellow leaves, from the maple trees, that lined our street... Or my grandmother's hands, and the way her skin seemed like paper... And the first time I saw my cousin Tony's brand new Firebird... And Janie... And Janie... And... Carolyn. I guess I could be pretty pissed off about what happened to me... but it's hard to stay mad, when there's so much beauty in the world. Sometimes I feel like I'm seeing it all at once, and it's too much, my heart fills up like a balloon that's about to burst... And then I remember to relax, and stop trying to hold on to it, and then it flows through me like rain and I can't feel anything but gratitude for every single moment of my stupid little life... You have no idea what I'm talking about, I'm sure. But don't worry... you will someday." - American Beauty

Lisbon pervert

Oriente, 8 da manhã.

"I see humans but no humanity"


A chuva seguiu-me até à gare. Ainda enevoado, sento-me num banco à espera do autocarro. 8:30 mais 20 minutos, 8:50, óptimo.  Lisboa não é uma cidade para fazer planos. Lisboa, cidade do Fado, cidade do amor encontrado em cada viela. Encontrado e perdido ... fado triste. Quem nasce nesta cidade nasce já atrasado para o destino final. Sempre as horas, sempre as horas. São já 8:30 e o autocarro ?? 8:40, 9h, espero. Aqui tudo corre a uma velocidade tal que os carros não vêm as passadeiras, apenas uma mistura perigosa de vermelho já com traços de verde, as pessoas não vêm os carros, as próprias pessoas não vêm as pessoas ...

É dia de greve e vejo tristemente a chegada do autocarro sucedida de uma selvajaria tal que faria o sem-abrigo a mendigar na calçada virar o olhar ... Ou talvez não, as pessoas não vêm as pessoas. O sem-abrigo ignora a situação, tal como as pessoas o ignoram a ele, e tal como estas são incapazes de se ver a si próprias. Lisboa, cidade da cegueira epidémica ... 9h e onde estou ? Será que me enganei no autocarro ? 9h, 9:40 ? Tenho tempo. E onde está Lisboa dos postais, cidade das ruas desenhadas pelo eléctrico e das casas velhas com a aparência do tempo ? Vai uma ginginha ? Com ou sem ginja ? De copo na mão imagino-me na baixa, o cheiro a castanhas e o peito cheio de Fado ... Mas que fado triste e só ... 10:05 e estou no Campo Pequeno, tanta pressa, tanta pressa, não tenho tempo, não tenho tempo ...  Mas chega o fim da semana e Lisboa já vai longe do coração, aqueles olhos negros cantados num Fado qualquer são esquecidos por outros cuja melodia já eu conheço de cor. 12:30, meia hora de metro, mais uns 10 minutos para comprar bilhete, 13:45 estou a partir, 15:30 em casa ... 

E em Évora está tudo como deixei. Lisboa, menina e moça. Évora, velha companheira. Lisboa, cidade de stress, do metro que só chega quando lhe convém, das pessoas que empurram até empurrarem com elas uma última réstia de humanidade. Lisboa dos solitários e dos casais. Lisboa paradoxal. Lisboa minha. Lisboa faça chuva ou faça sol, sempre Lisboa, sempre Lisboa ... mas Évora ... Évora da Harmonia e do jardim Diana. Cidade dos bairros brancos, Évora da escola onde te conheci, dos corredores onde te beijei ... Évora da saudade e do fado, fado feliz. Évora nossa.

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